Lembro de uma noite que encontrei um amigo em Bento Gonçalves. Era quarta-feira, se não me engano. Nos encontramos em um bar ali no Cidade Alta. Faz um ano, talvez menos. Minha cabeça fervilhava com alguns pensamentos. Foi naquela época que a história de aquecimento global realmente começou a se tornar realidade e institutos científicos de todo o mundo emitiam avisos sobre o derretimento de geleiras e faziam previsões catastróficas sobre aumento de temperatura na terra.
Pois bem, sempre pensei que minha geração é absurdamente privilegiada. Sempre pensei, e ainda penso, que nós, dos vinte e poucos anos vamos participar e visualizar uma mudança humana sem precedentes, talvez tão importante quanto a ocorrida na Revolução Industrial. No entanto, dessa vez, pensei, a mudança será humana mesmo.
O homem é uma caspa que se prendeu a este globo efervescente e cheio de vida. Um pedaço de nada em meio a padrões geológicos inimagináveis. Agora, essa bola imprevisível na qual vivemos, esta ilha, vai começar a cobrar um custo pelo parasitismo que desenvolvemos. Pensei e disse, naquela noite, com toda convicção e, claro, um pouco de cerveja na cabeça, que esse é o momento em que o homem vai começar a mudar. Eu penso, na verdade, que isso não será nem uma escolha, mas uma necessidade. Ou mudamos, ou sumimos.
Mas isso só introduz outro tema. Na verdade, o mote deste texto é algo chamado Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês). Isso é esta coisa de 27 quilômetros montada na fronteira da França com a Suíça e que está acelerando partículas para chocá-las em uma velocidade astronômica.
Eu sempre me pronunciei, na rádio e fora dela, a favor de pesquisa com células tronco, por exemplo, e sou favorável a investimentos também astronômico em muitas coisas. E entendo os motivos que levam tanta a gente há trabalhar tanto tempo nesse LHC. E também entendo os benefícios que uma pesquisa como essa poderá trazer em médio e longo prazo.
No entanto, não compreendo que espécie de lógica cientifica e humana, sim, porque são duas coisas diferentes, ao menos nesse caso, leva a tanto investimento no LHC em um momento como esse. Uma máquina dessas – a maior já construída pelo homem – deveria servir para reduzir os efeitos do aquecimento global, da fome na África, das desigualdades na Ásia e na América Latina, da crise dos alimentos. Deveria servir para pesquisar elementos capazes de combater o câncer ou o HIV. Sei lá, para algo assim. Creio que seria absolutamente empolgante o LHC depois que toda essa tralha de problemas que a humanidade enfrenta for resolvida.
Mas, o que nós, população mundial, vamos ganhar com isso? Quer dizer, que importância isso tem para as pessoas que precisam, urgentemente de alguma coisa? De uma esperança? Onde está a resolução ou a busca pela resolução da porcaria do aquecimento global?
Não quero passar por retrógrado, porque isso, com certeza não sou. Pelo contrário, já relacionei aqui física quântica com os conceitos de Poder de Foucault – tentei ao menos. Apenas gostaria de ver alguém empenhando tanto dinheiro, tempo e riscos em algo que realmente ajudasse as pessoas na busca por uma vida melhor.
Abração
Janquiel Mesturini